Imagine um parque de areia. Nele, existem os montes, e, sempre que surgem esses montes de areia, necessariamente aparecem também os buracos. Quanto mais altos os montes, mais fundos os buracos. Sendo assim, para um buraco ficar mais raso,obrigatoriamente é preciso tirar um pouco da areia dos montes. Na lógica dos detentores dos montes de areia, bastaria jogar mais areia no parque e, assim, todo mundo sairia ganhando, sem que os donos dos montes tivessem que perder areia. Parece simplório, mas esse cenário criado por Eduardo Moreira ilustra bem a ideia dele sobre desigualdade que guia o livro, mostrando como é furada essa tese dos donos dos montes, no caso real, os donos dos meios de produção e do poder econômico, principalmente.
A obra tem como norte explicar o real significado de “riqueza”, seu processo de criação e sua distribuição. O autor busca esclarecer a diferença entre riqueza e dinheiro, com o primeiro consistindo na produção de bens e serviços produzidos pela comunidade, oriundos da natureza e da mão de obra, com o objetivo de atender às necessidades das pessoas, tais como comida, casa, roupas, etc. Enquanto dinheiro é apenas um meio de troca para obter uma riqueza. Moreira enfatiza com várias situações essa diferença, tendo em vista que atualmente a obtenção de dinheiro é vista como o objetivo final, o que leva as pessoas a acreditarem equivocadamente que o acúmulo de dinheiro seria a maior riqueza que se poderia ter. “Tranque uma pessoa dentro de um cofre com 10 milhões de dólares por uma semana e veja se ela vai se achar rica (ou sairá viva)”, cita Eduardo Moreira.
Para quem acompanha o autor no seu canal no Youtube, sente-se bem familiarizado com os temas abordados no livro. Entre eles, o processo de investimento - fundamental para a geração de riqueza do grupo -, que fica a cargo do poder público e da iniciativa privada. Nesse embate, o primeiro se vê muitas vezes “refém” do segundo, e acaba contribuindo para o aumento da desigualdade. O endividamento público é um bom exemplo de como se dá a transferência de recursos públicos para grupos específicos e bastante concentrados (donos das terras e dos meios de produção), os quais se veem com poder de barganha, pois acreditam ser os principais geradores de riqueza, e, dessa maneira, contam com a ajuda do Estado (diminuição de direitos trabalhistas é um exemplo atual).
Outro fator decisivo para a enorme desigualdade no Brasil abordada no livro é a questão dos impostos. A carga tributária brasileira sobre bens e serviços é umas das mais altas do mundo, contrastando com os impostos que incidem sobre renda e propriedade. Isto é, os impostos cobrados no consumo (comida, roupa, transporte, por exemplo) tem um impacto muito maior em quem ganha um ou dois salários mínimos (maioria da população), uma vez que tudo que essa pessoa aufere é consumido com os bens e serviços de necessidade básica. Por outro lado, quem possui grandes áreas de terras tem sua carga tributária minorada com o objetivo de facilitar o processo de investimento para geração de riquezas. É a lógica do início do texto: jogar areia em todo parque para aumentar os montes e, dessa maneira, diminuir um pouco os buracos.
Para não me alongar mais, o livro elenca alguns caminhos para diminuir a desigualdade (estado mais forte, carga tributária mais justa, por exemplo), passa pelo papel dos bancos e fala também da experiência do autor em um acampamento do MST, onde relata ter aprendido os conceitos de economia (gerenciar o lar) na prática, tais como investimento, custo de oportunidade, risco e retorno. “Foi ali, morando junto àquelas pessoas e vendo a economia acontecer a todo instante, de verdade, diante dos meus olhos, que pude compreender um dos conceitos mais importantes para explicar a natureza do sistema capitalista: a indispensável relação de dependência entre trabalhadores e donos dos meios de produção.”

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